domingo, 25 de setembro de 2011

Notas da última aula: a tira cômica e o sistema das ações nos quadrinhos

Queridos,

Queria primeiramente me desculpar pelo contratempo da última sessão, já que ficamos impedidos de tratar de maneira mais completa os materiais que eu havia planejado disponibilizar durante a aula, após a fala de Jessica, o que pode ter deixado as coisas um pouco no vácuo. Em nosso próximo encontro (07/10), espero que possamos retomar uma parte do que se perdeu com este imprevisto.

De qualquer sorte, gostaria de adiantar alguns apontamentos sobre este ponto, de modo a ancorar nossos próximos passos, com alguma coerência: acho importante que se tenha em mente qual é a lógica que nos conduziu até aqui, para a compreensão de alguns elementos importantes, na compreensão da estrutura narrativa que permeia a arte dos quadrinhos.

O que estamos explorando aqui, na continuidade do que fizéramos antes, a título da caricatura, é a compreensão de que o texto narrativo, de um modo geral (portanto, independente de se estruturar por meio da escritura ou das formas visuais), implica em um certo princípio de organização de seus materiais que preza neles algo a que, grosso modo, chamo de um "sentido de mudança" que se sugere em cada um de suas partes, de modo mais ou menos intenso.

Não é o caso de desenvolver esta questão na extensão devida aqui - até porque a proposta do curso é outra, por ora - mas imagino que esteja claro que, ao tratarmos da caricatura (ou, a este título, de todo um vasto domínio das representações visuais calcada no modelo da expressividade, como é o caso do retrato grotesco em Leonardo, ou do estilo barroco no desenho) visávamos identificar esta questão da mudança de estados como um aspecto inerentemente promotor do sentido narrativo que os quadrinhos potencializarão, mais adiante.

Portanto, ao nos deslocarmos para os exemplos que estão no post imediatamente anterior a este, notamos que este sentido de mudança, sugerido pelo estilo abreviatório da representaçnao fisionômica, se consuma finalmente numa forma de construção das situações narrativas que é consagrada exemplarmente no padrão da tirinha cômica diária. Um de nossos esforços de momento é o de tentar verificar como é que se coligam e implicam o modelo da gag - descrito por Jessica - e a questão da implicitude de movimentos, supostamente instituídas no estilo caricatural. Da junção destas duas coisas depende muito de meu argumento.

Mas não é apenas a caricatura que está em jogo aqui, pois em outra de nossas sessões eu falava do tratamento do quadro como um limite sobre o qual se estabelecia um certo tipo de exercício de dinamização das formas fixas da representação pictórica: isto é, o fato de que a disposição dos elementos visuais num campo como o da vinheta é igualmente um fator associado a suas potencializades de exprimir movimento (uma olhadela na primeira tirinha de Peanuts e na página de Calvin and Hobbes logo abaixo, pode esclarecer este ponto).

Portanto, o estilo abreviatório do desenho (pensem nas formas dos caracteres de Peanuts), associado a um certo modo de construir os limites da vinheta como  necessariamente pautados pelo princípio de sua propagação linear - a representação e o quadro devem ser necesssariamente prolongados pra fazer sentido - estão na matriz do modo como podemos compreender o sentido narrativo mais integral das narrativas gráficas, em suas várias manifestações.

É importante também ter em mente que as questões que avanço não são apenas úteis à compreensão dos quadrinhos, enquanto gênero narrativo, mas também se aplicam a muitas das manifestações de uma discursividade que opera através de formas visuais (não é casual que eu introduza nas aulas exemplos vindos do cinema e da animação, a este título). Pensem nisto.

Enfim, são pequenas anotações que eu gostaria de compartilhar com vcs., e que estavam no horizonte do que eu deseja instruir a partir dos exemplos que eu houvera planejado trazer, na aula passada. Espero que possam contribuir para a compreensão dos problemas da disciplina.

Nos vemos na próxima aula.

Ad,

Benjamim

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